A jornada interminável até Mariona

Fotografias de Manuel Ortiz Escámez

ILHA ESPÍRITO SANTO, El Salvador — Aqui não há gangues. No entanto, desde 2022, o regime de exceção decretado pelo presidente salvadorenho Nayib Bukele alcançou até mesmo este território isolado. Pelo menos 24 moradores foram detidos, entre eles Saúl Blanco, ex-jogador da seleção nacional de futebol de areia. A cada quinze dias, sua mãe, Yanira, junto com outras duas mulheres, percorre de lancha e ônibus os caminhos que ligam a ilha a San Salvador para entregar pacotes de alimentos a seus familiares encarcerados no Centro Penal La Esperanza. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

Da rua, um cobrador grita quase cantando: “San Salvador, San Salvador!”

Esse grito é o sinal de que Yanira precisa. Não há tempo para pensar muito. Ela sobe por reflexo, porque foi isso que aprendeu: se dizem San Salvador, é esse o ônibus que deve pegar. Ela não sabe ler, por isso não procura números nem letreiros. Dali seguirá até “Mariona” — Centro Penal La Esperanza — para entregar o pacote de alimentos ao filho, Saúl Blanco, ex-jogador da seleção de futebol de areia, que, em 2008, em Marselha, durante a Copa do Mundo de Futebol de Areia, marcou um gol histórico. Hoje está encarcerado em uma prisão de El Salvador. Carolina e Matilde sobem com ela; as três avançam juntas entre empurrões e motores ligados. 

Para chegar até ali, o trajeto começou muito antes. Yanira se levantou às três da madrugada, como faz toda vez que viaja a San Salvador. A primeira coisa que fez foi se ajoelhar e rezar a seu Deus. Depois tomou banho, vestiu-se e deixou pronta a comida para o marido, que tem diabetes.

Minutos antes das cinco, Matilde grita do lado de fora, da rua empoeirada: —Yanira! Yanira!
—O que foi? —responde ela. Ainda é noite. Yanira acende a luz e a deixa entrar. Três minutos depois aparece Carolina, que mora mais longe.

Desta vez, a viagem caiu em um dia de semana. Exatamente quando o relógio marca cinco da manhã, soa o alarme da Associação Cooperativa de Produção Agropecuária El Jobal de R. L., a principal fonte de trabalho da ilha, onde Saúl Blanco também trabalhava como pecuarista. A essa hora, em meio à escuridão, as três pegam um mototáxi que as leva a um pequeno porto improvisado. Dali embarcam em uma lancha para sair da ilha El Espíritu Santo.

ILHA ESPÍRITO SANTO, El Salvador — Um morador parte um coco recém-colhido. A maioria das mais de mil pessoas que vivem nesta ilha, no arquipélago da baía de Jiquilisco, no município de Puerto El Triunfo, Usulután, sobrevive graças à cooperativa local. Conhecida como “a ilha dos cocos”, a fruta é sua principal fonte de sustento. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)
ILHA ESPÍRITO SANTO, El Salvador — Yanira e outras duas mulheres da ilha reúnem, com trabalhos ocasionais e pequenas fontes de renda, o dinheiro necessário para custear os pacotes de alimentos e higiene que entregam a seus familiares encarcerados. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

A maioria das mais de mil pessoas que habitam a ilha sobrevive trabalhando na cooperativa. Localizada no conjunto de ilhas da baía de Jiquilisco, no município de Puerto El Triunfo, Usulután, El Espíritu Santo é conhecida como a ilha dos cocos, sua principal fonte de produção. Quem não trabalha para El Jobal mantém pequenos empreendimentos. É o caso de Yanira, que compra cocos da cooperativa para fazer doces — um ofício que aprendeu em um curso de capacitação anos atrás — e leite para produzir queijo e vender.

SAN SALVADOR, El Salvador — Da esquerda para a direita, Silvia Carolina Martínez, Matilde Munguía e Silvia Yanira Hernández esperam um dos vários ônibus que precisam pegar para chegar ao presídio de Mariona. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

As três trabalham como podem, com o que têm, para reunir o dinheiro necessário para o pacote de alimentos e higiene de seus familiares. Carolina trabalha fazendo doces para outra moradora da ilha e, à tarde, prepara petiscos na casa da mãe, onde vive desde a prisão do marido, Cristian Pineda, em 3 de julho de 2022. Matilde, por sua vez, cuida de uma pessoa idosa e economiza para comprar o pacote de seu filho, Cristian, detido durante o regime de exceção.

O regime de exceção foi aprovado em El Salvador em março de 2022 como uma medida do Executivo para enfrentar as gangues, após uma escalada de homicídios. Desde então, com 47 prorrogações consecutivas, foram suspensas garantias constitucionais como o direito à defesa imediata, a inviolabilidade das telecomunicações e os prazos máximos de detenção administrativa. A medida provocou milhares de detenções extrajudiciais, muitas baseadas unicamente na suspeita ou na aparência de pertencer a uma organização criminosa.

Essas ações também foram documentadas pelos acadêmicos Beatriz Magaloni e Alberto Díaz-Cayeros, ambos professores da Universidade Stanford, afiliados ao Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito, cujos trabalhos “Democracia extinta e juventude encarcerada com Bukele” e “O modelo Bukele tem futuro?” dão testemunho das complexidades e dos paradoxos do que acontece atualmente em El Salvador.

Organizações de direitos humanos documentaram prisões em massa, detenções arbitrárias, violações de direitos, torturas e obstáculos para que as famílias tenham acesso a informações sobre seus parentes encarcerados. Em seu relatório mais recente, a organização Socorro Jurídico Humanitario documentou a morte de 470 pessoas sob custódia do Estado durante o regime de exceção; 94% delas não tinham vínculos com gangues, segundo a organização.

SAN ISIDRO CABAÑAS, El Salvador — Soldados patrulham uma rua central. Organizações de direitos humanos, assim como a equipe de pesquisadores do Laboratório de Democracia em Ação da Universidade Stanford, relataram detenções em massa de jovens em bairros urbanos pobres e zonas rurais, acusados, sem provas, de fazer parte de grupos criminosos. Muitos desses jovens não têm antecedentes criminais. Ainda assim, permanecem encarcerados, sem o devido processo legal, sem acesso a advogados nem visitas de seus familiares. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

A ilha El Espíritu Santo não registrou a presença de gangues, segundo pesquisas, autoridades e os próprios moradores. Apesar disso, pelo menos 24 pessoas foram presas desde a aprovação do regime de exceção, acusadas de pertencer a organizações criminosas. Dessas, 17 continuam na prisão e 7 foram libertadas. Entre os que permanecem detidos está Saúl Blanco, ex-jogador da seleção de futebol de areia, que em 2008 integrou a equipe que levou El Salvador a uma Copa do Mundo e marcou um gol histórico. Ele foi preso em 31 de maio de 2022 e atualmente está encarcerado no Centro Penal La Esperanza, conhecido como Mariona. Sua prisão é considerada injusta por seus familiares e vizinhos. Até o momento, o Estado não apresentou provas públicas que demonstrem seu pertencimento a uma gangue ou organização criminosa.

Nesse contexto, a entrega de pacotes de alimentos e higiene tornou-se um dos poucos vínculos entre as pessoas detidas e suas famílias. Por isso, cada viagem começa cedo. As lanchas saem da ilha El Espíritu Santo em direção a Puerto El Triunfo, que a conecta ao continente. Às 5h30 da manhã, com o amanhecer já despontando, Yanira, Matilde e Carolina chegam ao porto. Caminham cerca de dez minutos até um ponto de ônibus para pegar o primeiro do dia, que as leva até a estrada principal. Sabem que devem descer no posto de gasolina.

Ali esperam atentas. Escutam. O motorista grita “San Salvador” segundos antes de parar. Assim que para, elas sobem.  “Eu não fico olhando o número da linha. Basta gritarem que vão para San Salvador e eu subo”, diz Yanira. “Como não sei ler, por sorte ainda não me perdi nesses lugares”, acrescenta.  Na verdade, Yanira não sabe qual trajeto percorre, mas Carolina fica atenta e é quem as orienta. Das três, somente Carolina sabe ler.  O percurso dura mais de duas horas. 

SAN SALVADOR, El Salvador — Yanira, Matilde e Carolina tomam café da manhã no Terminal Oriente durante o longo deslocamento da ilha El Espíritu Santo até o Centro Penal La Esperanza, onde seus familiares estão encarcerados, acusados de pertencer a gangues, sem provas e sem o devido processo legal.
(© Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

O ônibus chega ao Terminal Oriente. Ali elas tomam café e comem pupusas no café da manhã, caso não estejam com o dinheiro contado. Caso contrário, seguem caminho e pegam o terceiro ônibus. Essa linha Yanira conhece. Ela garante que é a 26, que as leva ao centro de San Salvador. Há quase quatro anos, as três viajam juntas para entregar os pacotes a seus familiares a cada quinze dias. No entanto, nem sempre conseguem fazer isso a cada quinze dias: às vezes é difícil reunir o dinheiro necessário. Se alguma delas não o tem, as outras esperam. Esperam até que ela consiga o valor necessário e então viajam juntas.

Desde a implementação do regime, os familiares das pessoas privadas de liberdade fornecem periodicamente, conforme suas possibilidades, pacotes a seus parentes detidos. Um pacote com produtos de higiene e comida para uma pessoa presa pode custar cerca de 150 dólares por mês. No entanto, os familiares — em sua maioria mulheres — nem sempre conseguem reunir esse dinheiro. Nos arredores de Mariona, os preços variam de 75 dólares pelos itens básicos a 270 dólares pelo que os próprios comerciantes chamam de “pacote completo”. 

SAN SALVADOR, El Salvador — Carolina (Manuel Ortiz Escámez)
SAN SALVADOR, El Salvador — Carolina viaja de ônibus para o Centro Penal La Esperanza, onde está encarcerado seu marido, Cristian Pineda, preso sob o regime de exceção e acusado, sem provas, de pertencer a uma gangue em 3 de julho de 2022. (Manuel Ortiz Escámez)
SAN SALVADOR, El Salvador — Yanira, durante o trajeto até o Centro Penal La Esperanza, onde está seu filho, Saúl Antonio Blanco, acusado sem provas de pertencer a uma gangue e encarcerado sem o devido processo legal. Há três anos ela não o vê. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

Yanira é uma mulher de 56 anos que, desde que o filho foi preso, teve de voltar a trabalhar e fazer de tudo para ganhar dinheiro e sustentá-lo. O pacote que ela compra para ele custa 80 dólares; além disso, deposita cerca de 140 dólares por meio do SIPE, o Sistema de Informação Penitenciária, no qual os familiares que têm condições depositam dinheiro para que as pessoas detidas comprem nas lojas penitenciárias, localizadas dentro dos presídios. Carolina, por sua vez, além de trabalhar para sustentar o marido, também trabalha para manter as filhas.

SAN SALVADOR, El Salvador — Centro Penal La Esperanza, conhecido como Mariona. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

Ao chegarem ao centro de San Salvador, pegam o último ônibus. Poucos minutos depois, finalmente chegam a Mariona, seis horas após terem iniciado a viagem. Apressadas, descem, pois o ônibus mal para para que os passageiros desembarquem. São recebidas por mulheres que as chamam — como chamam todas as pessoas que passam pela região — para que entrem em suas lojas e comprem os itens necessários para montar os pacotes de seus familiares. O sol e o calor começam a se fazer sentir. São 11h da manhã.

SAN SALVADOR, El Salvador — Entrada do Centro Penal La Esperanza, onde as pessoas entregam pacotes de alimentos e higiene que compraram nos arredores do centro para seus familiares encarcerados. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

Sem perder tempo, Yanira, Matilde e Carolina vão até os portões do presídio para perguntar por seus familiares, saber se há alguma notícia sobre eles ou se precisam de algum medicamento. As respostas, no entanto, são sempre lacônicas.

Saúl Blanco sofre de uma doença crônica que exige medicação constante, segundo denuncia sua família. Desde sua prisão, Yanira não conseguiu entregar regularmente os medicamentos de que ele precisa, apesar de ter solicitado isso reiteradas vezes. Além disso, o Centro Penal La Esperanza, conhecido como Mariona, não cumpriu uma ordem do Primeiro Juizado de Vigilância Penitenciária, que determinou — por recomendação do Instituto de Medicina Legal (IML) — que Saúl Blanco, que sofre de duas doenças, fosse “avaliado em regime ambulatorial”.

Em abril de 2023, circulou um boato de que Saúl havia morrido. Era falso. Mesmo assim, Yanira pediu informações nos presídios, mas não obteve respostas. Somente quando ele teve sua audiência ela conseguiu se acalmar, ao confirmarem que seu filho estava vivo.

Carregando essas incertezas, depois de perguntarem nos portões do presídio, elas se dirigem até as moças que as chamam desde que descem dos ônibus. Aquelas que, se for preciso, atravessam a rua e param o trânsito para levar você até a loja delas e fazer com que compre. Elas sempre vão ao mesmo lugar. Embora às vezes, quando têm mais tempo, prefiram ir a um supermercado, porque é mais barato.

Mas cada minuto conta para elas. Por isso quase nunca vão ao supermercado, embora possa ser um pouco mais barato. Sabem que parar em outro lugar significa voltar para casa ainda mais tarde.

SAN SALVADOR, El Salvador — Matilde segura o pacote de alimentos e higiene que comprou para o filho, Santos Cristian, que está encarcerado no Centro Penal La Esperanza e que ela não vê há três anos. (Manuel Ortiz Escámez / Terra 360)

As moças da loja as recebem. Oferecem água e lhes dão lugar para sentar. Montam o pacote de cada uma, um por um. A primeira a ser atendida é Yanira. Perguntam a ela sobre cada item que vai levar, porque o pacote é montado de acordo com o orçamento de que cada pessoa dispõe. Os biscoitos são retirados das embalagens: algumas marcas são mais caras do que outras, e assim elas vão enchendo aquela grande sacola transparente que leva o nome completo de seu familiar, junto com o setor, e que será entregue no presídio.

Depois que cada uma está com seu pacote, elas atravessam a rua movimentada para entrar na fila e entregá-lo. A fila é enorme. O tempo de espera gira em torno de uma hora. As três aproveitam para ficar juntas. Desfrutam da companhia umas das outras. Cada uma tem sido o pilar da outra, afirmam. Entre si, protegem-se, ajudam-se, cuidam umas das outras e fazem companhia umas às outras. A hora passa e finalmente entregam o pacote. Mas ainda falta outra fila: a dos depósitos de dinheiro para seus familiares. Esta também é longa. Mais uma hora de espera, se tiverem sorte.

Chegar até ali lhes custou cerca de 10 dólares em despesas de viagem, segundo Yanira. Mas esse é apenas o custo da ida; a volta será igual. O relógio marca 14h. Se morassem perto, provavelmente estariam voltando para casa, mas para Carolina, Matilde e Yanira não é assim.

Elas iniciam o retorno à ilha El Espíritu Santo. O caminho é o mesmo: quatro ônibus, uma lancha e um mototáxi que as levarão de volta para casa. Sobem no primeiro micro-ônibus, cansadas, mas determinadas. Às 18h, como de costume, Yanira recebe a ligação do marido. A voz do outro lado pergunta sobre o trajeto, como ela está, se já está perto. Desta vez, por sorte, o trânsito está tranquilo e não há maiores contratempos.

A ligação acalma os dois. O ônibus chega ao posto de gasolina, isolado, em meio a quilômetros de estrada e estabelecimentos dispersos. Ela desce no mesmo ponto em que subiu horas antes, quando o motorista gritava: “San Salvador, San Salvador”. Só que agora está do outro lado da estrada. Esperam poucos minutos para embarcar no último ônibus, que as levará ao porto, onde pegarão a lancha de volta para casa.

O retorno parece mais lento. Cada parada do micro-ônibus parece mais longa, cada curva da estrada, mais pesada. Quase já não há conversa; o cansaço pesa nos ombros e nas pernas. São quase sete da noite quando Yanira chega em casa. Está tão escuro quanto quando saiu rumo a Mariona, catorze horas antes. Matilde é a segunda a chegar em casa, e Carolina, a última. Daqui a quinze dias — ou mais, se conseguirem reunir o dinheiro necessário — voltarão a empreender a mesma jornada. Por enquanto, resta apenas descansar.